Seres Intrusivos.docx
— Coloca a havaiana aí pra segurar a ponta — descalço os chinelos e atiro um pé pra ela. O vento tá meio zoado e fazemos um balé pra prender as quatro pontas da canga na areia. O marca-passo das ondas dobrando a uns sete metros controla o ambiente sonoro.
Ela deita usando a ecobag de travesseiro.
Eu deito direto com a cabeça na areia e foda-se.
Num amarelo gema, o sol torra, quase frita. Não demora e uma poça de suor cresce dentro do umbigo. Fico viajando em gotas atravessando com velocidade e pressão descomunais o canal do furo ainda aberto do piercing dos anos 2000. Como pode, ainda aberto. A sensação de passado incomoda, meto o dedo no umbigo tirando o suor.
O livro de capa coloridona tapa o rosto dela da hiperclaridade e ela enruga as pálpebras entre as páginas. Eu tô sem vontade de ler qualquer coisa agora e fico só estirada, esticada — mão cobrindo os olhos vestidos de óculos escuros — contemplando entre as sombras do indicador e dedo do meio o azul Klein do céu.
O ritmado das ondas. O ventinho fazendo cócegas. A areia fluindo a energia pela sola dos pés. O cheiro do protetor solar oleoso demais. Ela lendo do meu lado. O sol. Sempre o sol brilhando tudo.
Eu só quero ficar aqui, parada quietinha na paz descansando curtindo a vibe a natureza só assim quietinha com o silêncio da praia, que sorte silêncio da praia, só vou me manter nesse barulho de nada com nada pensando em nada pensando nessa quietude mental pensando nessa mudez de nóias e questionamentos e preocupações só o silêncio que delicia de silêncio como é bom deixar a mente descansar e ficar exatamente assim sem pensar e pensando em nada com porra nenhuma só nas ondas na areia e será que ela tá curtindo o livro? ah que paz terrível essa quietude toda mas que sede, af que sede, sede insuportável que a garganta tá até arranhando, porra cérebro só quero relaxar, tava super rolando e você me cutuca com mensagens incessantes de água água água.
Desisto e sento pra um gole.
É claro que eu não trouxe garrafinha nenhuma e vou ter que roubar a dela. Atravesso o braço e parte do ombro sobre o tronco dela e pego a garrafa. Ela dá uma reclamadinha que eu retribuo dando um gole exagerado. Até que sinto um negócio entrar na boca junto com a água, e cuspo.
Um pedaço de gengibre. Ufa. Me dá quase uma vontade de pegar de novo na areia, limpar e comer. Mas logo o pensamento desvia pra região onde deitei a cabeça. E ali, dezenas de buraquinhos espalhados. Como abrigo de mini marias-farinha.
Pego rápido no cabelo e nada de crustáceos se balançando em molas capilares. Couro cabeludo também intacto. Aparentemente nenhum ser se infiltrou na minha cabeça usando os cachos de túneis.
Ajo com prudência porque não sou de brincar com a sorte e deito de novo, mas com a cabeça na canga, deixando um pedaço da bunda na areia. Tento retomar a vibe superquietinha de antes mas só consigo imaginar mini marias-farinha, ou pior, mini caranguejinhos!, mini caranguejinhos roxos desbravando meu cabelo, rompendo o couro cabeludo com suas garrinhas e dominando pra sempre meus pensamentos.
Será que eu seria ainda mais canceriane?
Um excesso de caranguejos mastigando meus neurônios e derrubando lágrimas.
Ela segue lendo indiferente às minhas nóias ocultas e aí eu interrompo.
— Lin, você me ama mesmo?
— Amo, ninê.
— Então bora hoje
comer caranguejo, peloamordedeus? Tô com uma vontade infiltrada corroendo a cabeça.
— Nem pensar.
Agora já foi.




Demais!
Kkkkk… muito bom!!